quarta-feira, 28 de junho de 2017

Segundo ato: Poeira

Marta e Artur respiram profundamente ao observarem a transparência das peças de vidro à frente. Marta toma a iniciativa e antes da próxima questão que levantaria toca o peão e o lança duas casas à frente, parando a peça na posição B4, olhando em seguida com um ar que esperava uma reação de Artur quanto ao jogo.

Marta: Você já sofreu?

Artur: Claro que sim, muitas vezes, já perdi entes queridos e já me adoeci, já me machuquei, já quebrei um braço.

Marta: Isso te abalou em algum momento, te fez perder sua autoestima ou sua felicidade em estar vivo?

Artur: Já me abalou, fiquei triste por um tempo, mas passou, hoje posso dizer que já estou feliz novamente.

Primeiro ato: Poeira

Marta e Artur se fitaram por alguns minutos antes de começarem a puxar assunto. Se entreolharam e buscaram dentro de si o que os incomodava naquela figura parada à sua frente. Calmos e serenos, buscaram tocar no primeiro assunto que pairara por aquelas mentes intrigadas.

Artur: Me achas machista?

Marta: Não posso dizer que sim nem que não, tenho que saber mais sobre você e sobre suas ideias e posicionamentos.

Artur: Mas achas que eu poderia ser machista?

Marta: Certamente!


Prólogo

Este livro é o diálogo de uma transcendência do ser consigo próprio, é uma experiência de debate entre duas personalidades inseridas no mesmo agente. São elas duas personalidades que ora se opõem e ora concordam, às vezes se degladiam, noutras se amam.

A trama se passa numa sala de estar, estando sentados de frente um para o outro as duas personalidades do mesmo ser. Em sua frente, separando as duas personalidades, há uma pequena mesa de centro com um tabuleiro de xadrez com peças de vidro. Há um mundo alternativo em que o mesmo indivíduo tem a capacidade de se encontrar e ter uma conversa frente a frente consigo mesmo, através das duas personalidades que nele residem. É como se olhar no espelho e o espelho não refletir aquilo que você deseja enxergar. 

Nessa trama o indivíduo com dupla personalidade não será nomeado, mas sim cada uma das personalidades; elas serão nomeadas, categorizadas e definidas.

De um lado do tabuleiro temos Artur, homem, branco, heterossexual, cisgênero, honesto, pouco caprichoso, amante de batatas fritas com queijo cheddar.

Do outro temos Marta, mulher, negra, bissexual, cisgênero, honesta, bastante caprichosa, amante de salmão grelhado com queijo cheddar.

Percebemos algumas relações interessantes nessas duas personalidades, ambos são honestos e apreciadores do queijo cheddar.

Não sabem eles que residem no mesmo indivíduo enquanto tratam dos assuntos que serão abordados no decorrer dos diálogos que hão de percorrer.